Imagine o seguinte: um país em que os jovens freqüentam escolas de qualidade e se quiserem podem escolher um trabalho digno para ganhar a vida. Por lá, os jovens podem sair para se divertir e fazer cultura, com a garantia de que vão voltar inteiros pra casa. Se um jovem chegar num posto de saúde desse país, tem gente que escuta o que ele fala e fala o que ele entende.
Imagine um país em que os jovens podem pensar no futuro como um projeto, e não como uma fantasia ou um pesadelo.
Imagine um país em que os jovens podem pensar no futuro como um projeto, e não como uma fantasia ou um pesadelo.
Será que é sonhar demais? Bom, não deveria. Está escrito na Constituição: todo jovem tem direito a tudo isso. Mas é claro, a distância entre o papel e a realidade ainda é muito grande. Recentemente aconteceram alguns avanços na luta pelos direitos da juventude. O governo federal construiu a Política Nacional de Juventude que inicialmente tem 3 pilares: o PROJOVEM, um programa social voltado para jovens das capitais que estão fora da escola e do mundo do trabalho, além da Secretaria e do Conselho Nacional de Juventude.
É claro que os jovens lutaram por essas conquistas. Mas acontece que a opinião dos adultos tem pesado mais. Os rumos da Política Nacional de Juventude em geral têm sido ditados por gente do governo e por pesquisadores especializados em juventude.
Nada contra eles, evidentemente. Contar com esses adultos é fundamental. E aliás, faça-se justiça: há vários anos alguns pesquisadores têm sido grandes aliados da juventude, produzindo estudos e colocando o tema em pauta na agenda pública. Mas daqui em diante os jovens terão que assumir um papel mais ativo para não perder o que já foi conquistado e para conseguir novos avanços.
A boa notícia é que não estamos partindo do zero. A juventude não é tão alienada e despolitizada quanto se fala por aí. Por todo o Brasil é possível encontrar jovens engajados em ações concretas para melhorar a sua vida e da sua comunidade. E o interessante é que, para cada jovem engajado existem outros dez querendo fazer alguma coisa. Somando quem faz e quem quer fazer, estamos falando de uma turma de mais de 7 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos, 22% de toda a população juvenil do país, segundo a pesquisa “Retratos da Juventude Brasileira”, realizada pelo Instituto Cidadania.
Já pensou se de Norte a Sul do Brasil esses jovens se organizassem e fossem para as ruas para fazer valer seus direitos? Ia ser um barulho e tanto, não? Algumas iniciativas para fazer essa grande mobilização juvenil começam a surgir. Uma delas é o Fórum Nacional de Organizações e Movimentos Juvenis, que vem sendo articulado por jovens de vários estados do país.
A idéia inicial, lançada numa carta aberta durante a I Conferência Nacional de Juventude, realizada em Brasília em 2004, onde estivemos presente com um galera de Três de Maio, Boa Vista do Buricá e Horizontina é que o Fórum seja “um espaço de reunião e diálogo permanente” onde os jovens possam conversar e se organizar.
Lembrar da ágora grega é inevitável: o Fórum se propõe a ser um espaço público onde os cidadãos possam expor suas vontades e interesses, debater e tomar decisões juntos. Mais ou menos como acontecia nas cidades da Grécia Antiga. A grande diferença é que lá na terra do Aristóteles e do Platão nem todo mundo era bem vindo na ágora. As mulheres, estrangeiros, crianças e escravos ficavam de fora. No Fórum, a intenção é colocar todo mundo pra conversar.
A tarefa não é fácil. A realidade da juventude brasileira é muito diversa. Dentro de cada região e dentro de cada estado é possível encontrar jovens em condições de vida muito diferentes. Há até quem prefira falar de “juventudes brasileiras”, no plural, para não perder de vista essa diversidade. Um jovem que vive na zona rural tem uma vida bem diferente de um jovem que vive na periferia de uma capital. Os jovens negros têm reivindicações que são só suas. Os universitários têm outras. Os jovens homossexuais também. Tudo isso para ficar só em alguns exemplos.
O problema é que é muito difícil dizer o que é mais urgente e importante. E se cada movimento ficar puxando pro seu lado, todo mundo perde um pouco. Construir a unidade em meio a essa diversidade é um dos grandes desafios do Fórum. O trabalho para isso já começou. Na prática, desde a Conferência Nacional de Juventude já aconteceram algumas reuniões nacionais. E muita conversa pela Internet. Hoje existe uma lista de discussão em que jovens de todo o Brasil trocam notícias e idéias sobre a Política Nacional de Juventude. Um dos desafios é colocar mais gente na lista. Quanto maior e mais plural for o número de jovens participando, maior será a qualidade do debate virtual.
Precisamos agora garantir o espaço local de discussão destes avanços e nós do Instituto de Cooperação Juvenil já iniciamos este debate com a criação do Forum de Entidades de Juventude que está sonhando um conjunto de ações e se transforma num fórum local de discussão e aprofundamento sobre a temática juvenil.
Através dos Fóruns Locais, os jovens ficam mais perto do debate. E o debate mais perto da realidade da juventude. Afinal, o jovem mora nos municípios. A escola dele fica aqui. O trabalho, o posto de saúde, a família e os amigos também. Por isso, quando o assunto é política pública de juventude, é preciso levar em conta o que os jovens precisam para viver melhor na sua cidade e no seu bairro. Além disso, não podemos esquecer que os prefeitos e governadores têm uma grande parcela de responsabilidade na garantia dos direitos dos jovens. O governo federal não vai dar contra do recado sozinho.
E é bom lembrar também que cobrar essa responsabilidade dos governos é uma das tarefas da juventude. No final das contas, uma coisa leva à outra: os direitos da juventude não vão sair do papel sem políticas governamentais de qualidade. As políticas de qualidade não vão existir se os jovens não fizerem pressão. E os jovens não vão fazer pressão se não se organizarem.
Daí a importância do Fórum Nacional de Movimentos e Organizações Juvenis, um espaço em construção, aberto a todos os jovens brasileiros que querem tirar da imaginação e trazer para a realidade um país que é seu por direito.
* Coordenador de Relações Institucionais e Políticas de Juventude
Instituto de Cooperação Juvenil-ICOJUV
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